{"id":306,"date":"2021-05-20T09:51:45","date_gmt":"2021-05-20T13:51:45","guid":{"rendered":"https:\/\/redeecoabms.ufms.br\/?p=306"},"modified":"2023-02-15T15:20:29","modified_gmt":"2023-02-15T19:20:29","slug":"mais-uma-da-turma-do-pazuello-brasil-fica-sem-pesquisa-sobre-doencas-cronicas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/occa.ufms.br\/en\/mais-uma-da-turma-do-pazuello-brasil-fica-sem-pesquisa-sobre-doencas-cronicas\/","title":{"rendered":"Mais uma da turma do Pazuello: Brasil fica sem pesquisa sobre doen\u00e7as cr\u00f4nicas"},"content":{"rendered":"<h3><em>Vigitel, levantamento feito anualmente a respeito das enfermidades que mais matam os brasileiros, n\u00e3o tem previs\u00e3o de ser realizada. Minist\u00e9rio da Sa\u00fade n\u00e3o divulga sequer os dados do ano passado<\/em><\/h3>\n<p>Essa mat\u00e9ria foi publicada originalmente pelo site O Joio e o Trigo e escrita por Lu\u00edsa Souza. Para acessar o site e conferir essa e outras reportagens sobre Nutri\u00e7\u00e3o e Alimenta\u00e7\u00e3o sem conflito de interesse, <a href=\"https:\/\/ojoioeotrigo.com.br\/\">clique aqui<\/a>.<\/p>\n<p>O Brasil n\u00e3o ficar\u00e1 \u201cs\u00f3\u201d sem o Censo Demogr\u00e1fico neste ano. Tamb\u00e9m a pesquisa anual sobre doen\u00e7as cr\u00f4nicas ser\u00e1 uma aus\u00eancia eloquente em meio ao apag\u00e3o de dados que vive o pa\u00eds.<\/p>\n<p>O levantamento da Vigitel (Vigil\u00e2ncia de Doen\u00e7as Cr\u00f4nicas por Inqu\u00e9rito Telef\u00f4nico) \u00e9 conduzido pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade desde 2006 e era feito (at\u00e9 agora) todos os anos. A pesquisa integra o sistema de vigil\u00e2ncia de fatores de risco para doen\u00e7as cr\u00f4nicas n\u00e3o transmiss\u00edveis (DCNT), ao lado de dois outros inqu\u00e9ritos. Mas a chegada de Eduardo Pazuello e companhia \u00e0 Esplanada afetou n\u00e3o apenas o combate \u00e0 pandemia, como uma s\u00e9rie de atividades na \u00e1rea de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Realizada atrav\u00e9s de liga\u00e7\u00f5es para telefones residenciais das capitais de todos os estados, a pesquisa \u00e9 uma importante base de dados para acompanhar a sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o, e desenvolver e acompanhar o resultado de pol\u00edticas p\u00fablicas na \u00e1rea.<\/p>\n<p>Entre as enfermidades monitoradas est\u00e3o diabetes, c\u00e2ncer, doen\u00e7as respirat\u00f3rias cr\u00f4nicas e doen\u00e7as cardiovasculares, as principais causas de morte dos brasileiros. Os fatores de risco incluem tabagismo, alimenta\u00e7\u00e3o, inatividade f\u00edsica e consumo de bebidas alc\u00f3olicas.<\/p>\n<p>A Vigitel tamb\u00e9m produz investiga\u00e7\u00f5es tempor\u00e1rias sobre quest\u00f5es mais pontuais, tendo inclu\u00eddo perguntas sobre a dengue e sobre a prote\u00e7\u00e3o contra raios-violeta em determinados per\u00edodos.<\/p>\n<p>\u201cSe voc\u00ea v\u00ea, por exemplo, um aumento no n\u00famero de fumantes, voc\u00ea aumenta as pol\u00edticas p\u00fablicas para combater o tabagismo. Se voc\u00ea come\u00e7a a ver um aumento no consumo de alimentos ultraprocessados, voc\u00ea sabe que \u00e9 para esse lado que tem que direcionar\u201d, explica Renata Levy, pesquisadora cient\u00edfica do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP e do N\u00facleo de Pesquisas Epidemiol\u00f3gicas em Nutri\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade da USP (Nupens).<\/p>\n<p>Mas o monitoramento est\u00e1 parado desde maio de 2020, e n\u00e3o ser\u00e1 conclu\u00eddo este ano. A raz\u00e3o \u00e9 a n\u00e3o renova\u00e7\u00e3o do contrato do qual a pesquisa dependia, afirma Rafael Claro, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) que tem prestado aux\u00edlio t\u00e9cnico ao estudo. \u201cA pesquisa tem sido realizada em uma joint-venture entre tr\u00eas partes: um grupo de t\u00e9cnicos do Minist\u00e9rio de Sa\u00fade, uma empresa contratada para a coleta de dados e um grupo de universit\u00e1rios que fornecem apoio t\u00e9cnico\u201d, explica.<\/p>\n<p>Ele detalha que os contratos com a empresa s\u00e3o anuais e renov\u00e1veis por um per\u00edodo m\u00e9dio de at\u00e9 cinco anos, e que geralmente por volta de outubro h\u00e1 uma reuni\u00e3o para definir os rumos do inqu\u00e9rito no ano seguinte.<\/p>\n<p>Quando essa reuni\u00e3o ocorreu em 2019, ent\u00e3o, j\u00e1 se sabia que o contrato iria expirar em maio do ano seguinte. Foram propostos dois planos. O primeiro era seguir com a opera\u00e7\u00e3o normal e come\u00e7ar com a coleta nas capitais o quanto antes, e o segundo era fazer uma nova licita\u00e7\u00e3o para expandir o sistema da Vigitel.<\/p>\n<p>\u201cPara isso, a gente ia come\u00e7ar a fazer uma opera\u00e7\u00e3o ligando tamb\u00e9m para celulares e para telefones n\u00e3o apenas das capitais, tendo assim um sistema mais representativo dos estados\u201d, conta Claro.<\/p>\n<p>Foi elaborado um termo de refer\u00eancia, mas, segundo conta Claro, houve \u201cdificuldades\u201d no minist\u00e9rio e o pre\u00e7o estabelecido para o contrato foi \u201cbaix\u00edssimo\u201d, o que fez com que n\u00e3o fosse aceito.<\/p>\n<h2><strong>Aus\u00eancia, sil\u00eancio e oculta\u00e7\u00e3o de dados<\/strong><\/h2>\n<p>Sem essa quest\u00e3o resolvida, chegou 2020 e a coleta come\u00e7ou em janeiro. E em mar\u00e7o veio a pandemia. Nesse momento, a UFMG prop\u00f4s para a empresa um m\u00f3dulo para que a Vigitel coletasse dados tamb\u00e9m sobre Covid-19. Mas a proposta aprovada foi um inqu\u00e9rito paralelo com foco espec\u00edfico em coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>A investiga\u00e7\u00e3o estava composta de quatro blocos. O primeiro, de perguntas sobre medidas de prote\u00e7\u00e3o, se o entrevistado lavava as m\u00e3os, se tinha higiene respirat\u00f3ria, se estava saindo de casa.<\/p>\n<p>O segundo bloco focava em uma dessas medidas de prote\u00e7\u00e3o e procurava conseguir informa\u00e7\u00f5es mais detalhadas sobre como, quando e com que frequ\u00eancia ela estava sendo adotada.\u00a0 A medida em foco poderia mudar de acordo com as necessidades e prioridades do momento.<\/p>\n<p>Em seguida vinha um bloco direcionado \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o. Ali se perguntava onde as pessoas estavam buscando informa\u00e7\u00f5es sobre a Covid e quais eram as principais fontes de informa\u00e7\u00f5es (r\u00e1dio, TV, internet etc). Por fim, foi feito um bloco com quest\u00f5es sobre doen\u00e7as cr\u00f4nicas e fatores de vulnerabilidade como acesso a servi\u00e7os de sa\u00fade e posse de planos de sa\u00fade.<\/p>\n<p>O Vigitel continuou com a pesquisa habitual e o inqu\u00e9rito sobre a pandemia at\u00e9 5 de maio de 2020, quando acabou o contrato e a coleta de dados foi interrompida.<\/p>\n<p>E assim, \u201co tempo foi passando, a pandemia piorando e isso foi deixado para tr\u00e1s\u201d, diz Claro. O ano chegou ao fim, nada foi acordado para 2021 e at\u00e9 o momento n\u00e3o h\u00e1 sinais de que isso v\u00e1 acontecer.<\/p>\n<p>Mas, al\u00e9m dessa aus\u00eancia de perspectivas para que a Vigitel seja retomada, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade ainda n\u00e3o liberou os dados coletados no ano passado. Em um processo normal, diz Claro, a coleta termina em 15 de dezembro e em janeiro o relat\u00f3rio est\u00e1 pronto.<\/p>\n<p>\u201cO minist\u00e9rio optou por n\u00e3o public\u00e1-los\u201d, afirma Renata Levy. \u201cIsso eu acho mais grave ainda, porque n\u00e3o \u00e9 nem uma quest\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria. J\u00e1 foi feita, ela j\u00e1 est\u00e1 pronta.\u201d<\/p>\n<p>A pesquisadora do Nupens tamb\u00e9m afirma que algumas institui\u00e7\u00f5es est\u00e3o requisitando os dados atrav\u00e9s da Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o para torn\u00e1-los p\u00fablicos, mas que at\u00e9 agora eles n\u00e3o foram obtidos.<\/p>\n<p>Embora a coleta tenha sido incompleta e os dados s\u00f3 se refiram ao per\u00edodo at\u00e9 maio, eles s\u00e3o a \u00fanica fonte de dados federal e oficial sobre doen\u00e7as cr\u00f4nicas e fatores de risco.<\/p>\n<h2><strong>Covid-19 e doen\u00e7as cr\u00f4nicas<\/strong><\/h2>\n<p>A pandemia torna essas informa\u00e7\u00f5es ainda mais urgentes. Diversas doen\u00e7as cr\u00f4nicas aumentam o impacto da Covid e o risco de morte por pessoas infectadas, ent\u00e3o \u00e9 essencial ter acesso a dados sobre doen\u00e7as cr\u00f4nicas para avaliar o impacto da crise sanit\u00e1ria.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/iris.paho.org\/bitstream\/handle\/10665.2\/52936\/OPASNMHMHCOVID-19200042_por.pdf?sequence=5&amp;isAllowed=y\">Uma pesquisa<\/a>\u00a0da Organiza\u00e7\u00e3o Panamericana de Sa\u00fade (<span class=\"tooltipsall tooltipsincontent classtoolTips8\" data-hasqtip=\"0\">Opas<\/span>) em setembro de 2020 apontou que 42% dos brasileiros entrevistados aumentaram o consumo de \u00e1lcool durante a pandemia. Um m\u00eas antes, um<a href=\"https:\/\/ojoioeotrigo.com.br\/2021\/03\/pandemia-do-cigarro-agrava-covid-19-e-aprofunda-rombo-nos-cofres-publicos\/\">\u00a0estudo da Fiocruz<\/a>\u00a0informou que 34% dos fumantes entrevistados declararam ter aumentado seu consumo de cigarros. Outros levantamentos\u00a0<a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/saude\/noticia\/2020-11\/consumo-de-alimentos-ultraprocessados-cresce-na-pandemia\">tamb\u00e9m t\u00eam apontado<\/a>\u00a0crescimento no consumo de alimentos ultraprocessados durante a pandemia.<\/p>\n<p>Sem o monitoramento nacional, pondera Levy, \u00e9 muito dif\u00edcil avaliar a situa\u00e7\u00e3o e ajustar pol\u00edticas p\u00fablicas na \u00e1rea de sa\u00fade.<\/p>\n<p>O contexto \u00e9 ainda mais preocupante com a aus\u00eancia do Censo do IBGE, a pesquisa nacional mais importante do pa\u00eds. A aus\u00eancia de estat\u00edsticas no momento mais cr\u00edtico da hist\u00f3ria recente do pa\u00eds \u201c\u00e9 uma trag\u00e9dia, vai prejudicar muito o Brasil\u201d, define Claro.<\/p>\n<p>Em abril, o pa\u00eds foi pego de surpresa com a not\u00edcia de que o Censo, j\u00e1 adiado no ano passado, n\u00e3o seria feito. O or\u00e7amento sancionado pelo presidente Jair Bolsonaro apresentou cortes nos recursos para o estudo, e a verba para isso, que j\u00e1 foi de R$ 2 bilh\u00f5es, terminou reduzida a R$ 50 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Para Claro e Levy, a aus\u00eancia do levantamento nacional \u2013 a principal fonte de refer\u00eancia para o conhecimento das condi\u00e7\u00f5es de vida da popula\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 um fator de desequil\u00edbrio em cascata: \u201cO IBGE faz a calibra\u00e7\u00e3o de todos os inqu\u00e9ritos\u201d, diz Claro. \u201cAo n\u00e3o ter Censo, todos os inqu\u00e9ritos que continuam v\u00e3o vir com algum grau de cansa\u00e7o.\u201d<\/p>\n<p>Essa aus\u00eancia de dados afeta n\u00e3o apenas a \u00e1rea de sa\u00fade. Sem o levantamento nacional, os inqu\u00e9ritos ir\u00e3o trabalhar com proje\u00e7\u00f5es populacionais, explicam os pesquisadores. Mas, depois de mais de uma d\u00e9cada sem o Censo, \u00e9 question\u00e1vel a precis\u00e3o dessas proje\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Para Levy, a aus\u00eancia de dados \u00e9 uma nova realidade com a qual os pesquisadores n\u00e3o est\u00e3o acostumados. \u201cA gente tinha facilidade de acesso a dados nacionais, seja produzidos pelo IBGE, seja pelo pr\u00f3prio minist\u00e9rio. Qualquer pesquisador de qualquer universidade conseguia acessar os dados e trabalhar com eles.\u201d<\/p>\n<p>De acordo com Claro, h\u00e1 tentativas de voltar a dar andamento ao Vigitel. Se a licita\u00e7\u00e3o for conclu\u00edda at\u00e9 agosto, ele conta, a coleta poderia ser reiniciada, mas dessa vez com in\u00edcio no final do ano, ao inv\u00e9s do come\u00e7o.<\/p>\n<p>Contatado pelo\u00a0<strong>Joio<\/strong>, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade confirmou que um novo processo de licita\u00e7\u00e3o est\u00e1 em andamento e afirmou que \u201cem breve\u201d os dados da pesquisa de 2020 estar\u00e3o dispon\u00edveis. Por enquanto, permanecemos no escuro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vigitel, levantamento feito anualmente a respeito das enfermidades que mais matam os brasileiros, n\u00e3o tem previs\u00e3o de ser realizada. Minist\u00e9rio da Sa\u00fade n\u00e3o divulga sequer os dados do ano passado Essa mat\u00e9ria foi publicada originalmente pelo site O Joio e o Trigo e escrita por Lu\u00edsa Souza. 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